A dor de perceber que quem amamos é livre
Poucas experiências são tão desafiadoras quanto amar alguém. Não apenas pela intensidade dos afetos envolvidos, mas porque o amor nos confronta com uma verdade difícil de sustentar: a pessoa que amamos é livre.
Livre para desejar, livre para escolher, livre para sonhar e livre para existir para além de nós.
À primeira vista, essa afirmação pode parecer óbvia. No entanto, quando observamos mais atentamente nossas relações, percebemos que boa parte do sofrimento amoroso nasce justamente da dificuldade de aceitar essa realidade. Costumamos chamar esse sofrimento de ciúme, insegurança ou medo da perda, mas suas raízes podem ser mais profundas.
O psicanalista Donald Winnicott oferece uma importante contribuição para compreender essa questão. Segundo ele, o início da vida é marcado por uma experiência de dependência absoluta. Nos primeiros meses, o bebê ainda não percebe claramente que quem cuida dele é uma pessoa separada. Há uma vivência subjetiva na qual parece que o mundo responde diretamente às suas necessidades.
Quando sente fome, alguém aparece. Quando chora, alguém o acolhe. Quando precisa de cuidado, existe uma presença que organiza seu mundo.
Por algum tempo, existe uma espécie de ilusão de centralidade. Como se tudo girasse ao seu redor.
O amadurecimento emocional começa justamente quando essa ilusão encontra seus limites. Aos poucos, a criança descobre que quem cuida dela também se ausenta, também falha, também possui desejos próprios e uma vida que não se resume à sua existência.
Winnicott descreve esse movimento como a passagem da dependência absoluta para a dependência relativa. Trata-se de um processo fundamental do desenvolvimento humano: reconhecer que precisamos dos outros, mas que eles não nos pertencem.
Talvez seja por isso que o amor romântico exerça tanto fascínio.
Quando nos apaixonamos, frequentemente reencontramos algo dessa experiência primitiva. Não buscamos apenas amor. Buscamos também importância. Desejamos ocupar um lugar especial na vida de alguém. Queremos sentir que somos únicos, insubstituíveis, indispensáveis.
Por alguns instantes, parece possível recuperar uma sensação antiga de completude.
Nesse sentido, é especialmente interessante a observação do psicanalista Adam Phillips, quando escreve que “crescer significa tornar-se um membro-fantasma; apaixonar-se significa adquirir um”. Ao nos apaixonarmos, experimentamos a sensação de reencontrar algo perdido, como se voltássemos a ocupar um lugar central na vida de alguém.
Mas nenhuma relação consegue sustentar essa fantasia para sempre.
A pessoa que amamos continua sendo um sujeito separado. Continua possuindo pensamentos que desconhecemos, desejos que não controlamos e sonhos que não dependem de nós para existir. Continua sendo um universo que jamais poderemos habitar completamente.
É justamente nesse ponto que surgem muitos dos conflitos amorosos.
Queremos que o outro seja livre, mas não excessivamente livre. Queremos que tenha desejos, mas gostamos de imaginar que fazemos parte deles. Queremos que tenha autonomia, mas sem que essa autonomia nos confronte com a possibilidade de não sermos indispensáveis.
O desejo, afinal, é inquieto, imprevisível e, muitas vezes, contraditório. Ele não pede autorização à nossa necessidade de segurança antes de existir.
Quando o amor nos coloca diante dessa realidade, o ciúme frequentemente aparece. Mas talvez ele não seja apenas medo da perda ou rivalidade. Talvez seja também a dificuldade de aceitar plenamente a alteridade do outro.
Em certa medida, o ciúme se parece com um luto.
O luto da fantasia de sermos o centro da vida de alguém.
O luto da fantasia de sermos únicos.
O luto da fantasia de sermos indispensáveis.
Reconhecer isso não significa eliminar o ciúme ou alcançar um estado idealizado de evolução emocional. A maturidade afetiva não consiste em deixar de sentir. Tampouco significa tornar-se indiferente ao outro.
Talvez a maturidade consista em algo mais complexo e mais humano: conseguir sustentar a liberdade da pessoa amada sem transformá-la em uma ameaça constante.
Significa aceitar que o outro possui uma vida própria, desejos próprios e caminhos próprios. Significa reconhecer que o amor não elimina a separação entre duas pessoas.
Paradoxalmente, é justamente aí que o amor se torna mais profundo.
Porque quando deixamos de amar o outro como uma propriedade ou como uma garantia narcísica, passamos a amá-lo como sujeito. Não apesar de sua liberdade, mas incluindo sua liberdade.
A pessoa que amamos é livre. E essa é uma das verdades mais difíceis de sustentar.
Mas talvez seja também uma das mais importantes.
Pois é nesse reconhecimento que o amor deixa de ser posse e se transforma em escolha.
Daniela Bontempi